Putin condena o ataque dos EUA na Síria e diz tratar-se de uma ''agressão a um Estado soberano''

Putin condena o ataque dos EUA na Síria e diz tratar-se de uma ''agressão a um Estado soberano''


Atualizado em abril de 2017


O presidente da Rússia, Vladimir Putin, considera que o ataque dos Estados Unidos ao seu aliado Bashar al Assad representa uma violação da legislação internacional e coloca em risco a cooperação com Washington no país árabe. ''Putin vê o ataque [contra uma base síria] como uma agressão contra um Estado soberano que viola a legislação internacional e que se baseia num pretexto fabricado para desviar a atenção das mortes de civis no Iraque'', afirmou nesta sexta-feira o porta-voz do presidente russo, Dmitry Peskov, informa a Reuters.


''Este passo dos Estados Unidos vai representar um golpe significativo nos laços EUA-Rússia'', acrescentou o porta-voz em referência à cooperação bilateral na Síria contra os jihadistas do Estado Islâmico (ISIS). A delegação russa solicitou formalmente nesta sexta-feira, dia 7 de abril, uma reunião extraordinária do Conselho de Segurança da ONU para discutir a situação, que classifica de uma ''violação maior da legislação internacional''.

O ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, comparou o ataque à intervenção do Iraque em 2003. ''Isso lembra a situação de 2003 quando Estados Unidos e Reino Unido, com seus aliados, invadiram o Iraque sem autorização do Conselho'', afirmou Lavrov, de Taskent, a capital do Uzbequistão. ''Podem dizer o que quiserem, mas o ataque, sem dúvida, é mais do que palavras'', acrescentou, como informa a agência EFE.

O chefe do comitê de defesa do Conselho da Federação Russa, Viktor Ozerov, disse que ''os bombardeios norte-americanos contra a base aérea síria podem solapar os esforços na luta contra o terrorismo na Síria'', relatou a agência de notícias estatal RIA. O funcionário mencionou também uma possível suspensão da cooperação militar entre os Exércitos da Rússia e dos EUA na Síria.

A tensão bilateral já era patente durante o dia na ONU. A embaixadora dos Estados Unidos na organização, Nikki Haley, havia sido taxativa em sua intervenção no Conselho, na quarta-feira. ''Quando fracassamos em agir de forma coletiva, chega um momento em que os países precisam fazer algo'', advertiu ela, respondendo à recusa russa em aceitar uma resolução que condenaria o ataque com armas químicas ocorrido nesta semana na Síria. Na noite de quinta, a diplomata abandonava às pressas a sede do organismo após o fracasso da última tentativa de levar adiante uma resolução contra o regime sírio, promovida pela França e o Reino Unido.

Era o prelúdio de algo maior. A intervenção militar direta contra alvos do regime na Síria foi divulgada menos de uma hora depois do término da segunda rodada de negociações sobre a resolução. A ameaça do Governo de Donald J. Trump estava clara. Vladimir Safronkov, o embaixador russo na ONU, advertiu que qualquer ação nesse sentido teria ''consequências negativas'' e ''trágicas''. ''Fui muito franco'', insistiu, ao deixar a reunião.

Safronkov já acusara na quarta-feira as potências ocidentais de ''estarem tentando semear a discórdia'' com suas manobras e qualificou a proposta de resolução de ''provocativa''. Também afirmou que a única intenção de Washington, Londres e Paris é substituir o regime na Síria. ''Esta obsessão só serve para obstaculizar o trabalho do Conselho'', declarou, antes de apresentar um texto alternativo de resolução pedindo uma investigação sobre o incidente, que matou dezenas de civis, inclusive crianças.

''Vejam o que acontece no Iraque, vejam o que acontece na Líbia'', disse o embaixador russo, referindo-se às intervenções militares mais recentes realizadas pelo Ocidente. O encontro desta quinta-feira no Conselho acabou, após quase duas horas, sem nada de concreto. Ao todo, havia três resoluções sobre a mesa. A intenção era poder chegar a um consenso nesta sexta. Mas, diante do desenlace da noite passada, não está claro se isso será possível.

A Rússia já vetou sete resoluções sobre a Síria. A China as apoiou em cinco ocasiões. Os EUA, por sua vez, não estavam demonstrando flexibilidade alguma na negociação. A embaixadora Halley, que exerce neste mês a presidência do Conselho, chegou a colocar em dúvida durante o debate da quarta-feira que a Rússia estivesse interessada em obter a paz na Síria. O embaixador francês, François Delattre, acrescentou que a inação e o imobilismo não podiam ser a opção diante do massacre.

O representante diplomático do Reino Unido, Matthew Rycroft, claramente impaciente com a situação, acusou por sua vez a Rússia e a China de serem diretamente responsáveis por esta situação dramática na Síria. ''Estamos vendo as trágicas consequências do veto'', disse, fazendo um apelo às duas delegações para que se somassem à sua iniciativa. ''O regime de Assad está humilhando vocês diante do mundo. Defender o indefensável cria dor''.

Londres apoia plenamente a ação dos EUA, que qualifica de ''resposta apropriada ao ataque bárbaro com armas químicas provocado pelo regime''. Mas a ação militar volta a pôr em evidência a profunda divisão e a incapacidade de chegar a um acordo que permita pôr fim a um conflito que já dura seis anos. As prioridades dos cinco membros permanentes do Conselho, que têm poder de veto, neste momento mais dividem do que unem.




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