Redação do Enem: Como argumentar sobre o tema 'mobilidade urbana e ciclovias'

Redação do Enem: Como argumentar sobre o tema 'mobilidade urbana e ciclovias'


A mobilidade urbana – como e em quais condições as pessoas se movem dentro das cidades – tem sido tema de debates nos últimos anos. Basta lembrar que o aumento das tarifas cobradas nos ônibus de várias cidades, em junho de 2013, deu origem a uma série de manifestações populares que conseguiram frear o ajuste. Ou ainda observar as recentes discussões sobre a instauração das ciclovias e ciclo faixas no País, que suscitam questionamentos tanto sobre segurança quanto sobre meios de transporte alternativos.

Diante desse cenário, o Boas Escolhas conversou com a professora de redação e coordenadora do Ensino Médio Daniela Aizenstein sobre a possibilidade de este tema ser exigido na prova de redação do Enem.

Para a professora, a mobilidade urbana pode aparecer no Enem como um direito do cidadão, podendo o aluno optar por tratá-lo como um direito constitucional ou então um dos Direitos Humanos. ''Talvez, eles apresentem (na coletânea) textos que levem os alunos a refletir sobre o grande predomínio do automóvel nas vias urbanas, o pouco espaço que é destinado inclusive pelas políticas públicas para transportes alternativos'', afirmou Daniela.




Ciclovias aparecem na redação do Enem

A docente acredita que, no caso das ciclovias e ciclo faixas, o foco do texto dissertativo-argumentativo seria o posicionamento do estudante: se ele é ou não a favor da implementação. Para auxiliar os candidatos nessa reta final de preparação para o exame, ela sugeriu alguns pontos que podem ser levantados na argumentação.

No caso das pessoas que são a favor, a professora de redação destacou duas reflexões. A primeira, mais comum, coloca as bicicletas como um transporte alternativo: ''correspondem a uma tendência de uso de um transporte ecologicamente correto e mais acessível à maioria das pessoas. Então, socialmente mais adequado'', explicou.

A outra, por sua vez, já faz uso da questão do direito de ir e vir, como discorreu ela: ''Na constituição, existe o direito de ir e vir de cada um, mas não existe nenhuma ressalva que diga como exercê-lo, se de carro ou a pé. Logo, cada um de nós tem o direito de ir e vir com o recurso que mais nos prouver''. E completou: ''Se você sai com uma bicicleta numa avenida movimentada, você acaba correndo risco de vida por não ter seu direito respeitado. O que o poder público tem que fazer? Mediar esses interesses, criar uma alternativa. É por isso que se criam as faixas da bicicleta, da moto e do ônibus''.

Já para aqueles que são contra a medida, ela destacou três possibilidades de argumentação. ''A questão do planejamento e da segurança são muito importantes, inclusive a educação para o uso das bicicletas nas vias, porque existem regras de trânsito'', disse. O segundo ponto que poderia ser abordado diz respeito à consulta pública, já que ''muitas das decisões que visam a implementação desses mecanismos para transporte são impostos e não discutidos com a sociedade'', como ela indicou.

O último argumento apresentado pela professora de redação já faz referência a priorização do transporte coletivo nos grandes centros urbanos. A razão para isso está no fato de que os trabalhadores deslocam-se por muitos quilômetros diariamente, de modo que a preferência para receber investimentos não deveria ser das bicicletas, mas sim o transporte público.

A professora considerou a oposição à medida mais difícil de sustentar, mas ressaltou que os candidatos podem expressar sua opinião ainda assim: ''o aluno é livre para defender seu posicionamento de acordo com seus valores e referências''.

Por fim, os candidatos devem prestar atenção também na proposta de intervenção, uma exigência específica do Enem. Apesar das diversas soluções possíveis, a professora Daniela alertou que reivindicar projetos de conscientização e políticas públicas que respeitem as liberdades dos outros são sempre presentes.

Direitos e deveres dos cidadãos nessa proposta

Além dos Direitos Humanos, Daniela Aizenstein expôs que os estudantes podem trabalhar também o lado moral e o debate sobre civilidade que envolve a instauração das ciclovias. ''A necessidade desta implantação vem muito do fato de que nas vias existentes, muitas vezes, o respeito em relação ao outro não é colocado em prática. Se você não respeita o direito do outro, quer dizer que você não o enxerga como um cidadão de direito e isso tem relação com a sociedade individualista em que vivemos'', esclareceu a docente.