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Marisqueira que pesca desde os 7 anos sonha abrir restaurante

Marisqueira que pesca desde os 7 anos sonha abrir restaurante


Atualizado em fevereiro de 2017


Há mais de 40 anos trabalhando como marisqueira, Crispina Bispo Barbosa, 48, conhecida como Miúda, ganhou, em 2009, um novo ofício.


Além de garantir a renda semanal de R$ 100 com os frutos do mar, ela virou instrutora do Instituto Perene, que, desde 2009, instala fogões a lenha sustentáveis no Recôncavo Baiano.

Por ser da comunidade, ela faz a ponte entre a organização e os moradores da região para que cada vez mais lares tenham um fogão a lenha que gere menos fumaça e calor, o que é prejudicial à saúde.

"Acredito que minha voz fica assim rouca por causa da fumaça. Dava tosse, dava cansaço nas crianças", conta. Ela diz que seu trabalho de convencer seus conterrâneos não é fácil. "Dá mais trabalho que o marisco".

Em seu fogão, gosta de cozinhar de tudo e seu sonho é abrir um restaurante.

Leia o depoimento:

Desde os 7 anos sou marisqueira. Estou com 48 hoje, então desde sempre. Não é que gosto, é necessidade. Eu queria ter um trabalho melhor, que eu pudesse fazer sem precisar de maré. Desde os 7 trabalhando é muito cansativo, a idade vai chegando.

Meu marido é pedreiro. Ganha R$ 6 por dia, mas esses tempos não está conseguindo trabalho. Só eu estou trabalhando, com a pesca, que são uns R$ 100 por semana.

Gosto muito de morar aqui. Só acho difícil conseguir trabalho e também para se deslocar até mercado, farmácia, mas a gente acostumou. Cidade não é minha praia. Gosto do meu cantinho, da minha lenha, da minha maré, do meu fogão.

Tenho fogão desde 2009. Sempre usei fogão a lenha e sei que o fogão armado é muito diferente desse. Antes, era uma coisa estranha. Meu marido sempre foi traquina e fez uma base enorme, mais alta, botou três blocos e construiu o fogão. Era muita lenha, muita fumaça.

Acredito que minha voz fica assim rouca por causa da fumaça. Dava tosse, dava cansaço nas crianças. O problema é autoestima também porque o carvão deixa a gente sujo. Para muitas pessoas isso não é nada, mas para a gente, que é mulher, é ruim.

A chegada

Numa bela tarde, chega um rapaz conhecido nosso dizendo que alguém de fora estava procurando um pedreiro daqui para fazer um fogão. Aí o fazendeiro indicou meu marido, que já tinha trabalhado com ele.

O Guilherme Valladares [fundador do Instituto Perene] contratou meu marido e eu entrei de gaiato mesmo. Entrei porque gostei tanto do fogão que quis levar para as outras pessoas a boa ideia. A comunidade aderiu muito bem. Tem mais de mil fogões só nessa região.

Sou instrutora do instituto. Ensino como cuidar do fogão porque toda vez que constrói, a gente ensina as pessoas a cuidar. Quem constrói são os homens, mas quem cozinha são as mulheres, e é nessa que eu entro.

Quando chega alguém de fora, as pessoas gostam de se esconder, ficam com vergonha. Por isso que teve que ter alguém daqui. E vai continuar assim, tem que ter alguém do lugar para fazer essa ponte, se não um trabalho tão rico acaba.

Convencer o povo dá mais trabalho que o marisco. Tem todo o tipo de gente, mas acaba sendo prazeroso porque eu não deixo nem me tratarem mal, já chego implicando, brincando. Para convencer gente é mais difícil do que fazer um trabalho que a gente desde pequeno faz.

Com o fogão novo, mudou muito porque fumaça não tem mais, as pedras que não deixam o calor passar. A gente recebia todo o calor do fogo.

Eu adoro de cozinhar de tudo. Meu sonho é ter um restaurante.