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''Não quero ser silenciado'', diz aluno gay que usou salto em formatura

''Não quero ser silenciado'', diz aluno gay que usou salto em formatura


Atualizado em fevereiro de 2017


Prestes a colar grau, no último dia 10, o formando de Relações Internacionais Gustavo Rodrigues Costa, de 21 anos, foi com a mãe comprar o calçado que usaria na cerimônia de encerramento de quatro anos de estudos longe de casa – ele mora em Cotia (Grande São Paulo), mas cursou a Universidade Federal do Pampa (Unipampa) em Santana do Livramento, no interior gaúcho. A escolha do adereço teve o aval da matriarca: um salto de 14 cm de altura e dourado. "Fiquei em dúvida, mas ela me disse: 'Leva o dourado, que é mais bonito'", conta. E assim foi.


Se a escolha foi encarada com naturalidade por mãe e filho, na cerimônia, a sandália causou alvoroço e falatório. Mas essa foi a forma que o jovem achou para chamar a atenção para a "invisibilidade forçada", modo como ele se refere à própria sexualidade. Costa se assumiu gay no mesmo ano em que chegou à universidade, 2013.

O gestou causou comentários na plateia, mas os amigos o pouparam ao não reproduzi-los ao jovem. Ele, mesmo, só reparou "alguns olhares de estranheza", fora o apoio que recebeu. Com as primeiras notícias sobre a colação de grau com salto, porém, vieram os primeiros comentários depreciativos e mais diretos.

"Caí no erro de ler esses comentários, e aí foi um choque de realidade. Li gente dizer que 'faltou surra' para mim, em casa, ou que me assumir gay em uma cerimônia dessas seria 'falta de vergonha na cara'. Isso me dá uma tristeza, me dá medo, mas me dá também mais vontade de eu continuar fazendo coisas como essa para me defender e defender outros que não têm a mesma condição que eu", definiu. "Mas eu não esperava que fosse ter essa repercussão toda".


De acordo com o graduado em R.I., a inspiração para o protesto particular veio de outro formando também gay assumido: o estudante Talles de Oliveira Faria, 24, que se formou em engenharia da computação pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos (SP). Na cerimônia, realizada em 17 de dezembro do ano passado, ele deixou de lado a tradicional beca e usou vestido vermelho, salto alto e maquiagem como protesto contra a homofobia que ele disse existir dentro da instituição.

"Ao longo da graduação, tivemos esse debate de que a formatura seria um espaço propício a protestos pacíficos como o meu. É importante tirar esse debate da sala de aula e levá-lo a praças, corredores, e a colação de grau teria esse impacto, ainda mais por se tratar de uma universidade pública", disse. "O caso do Talles deu um empurrão grande – o considero um precursor e que me deu um ânimo maior para expressar o que eu sinto", completou.

E Costa espera que o ato dele não seja o último. "Quero justamente estimular outras pessoas a tomar atitudes como essa e mostrar que a gente tem que dar voz a quaisquer minorias, justamente para que elas possam ocupar espaços que lhes são negados – seja nas cidades, na universidade, no mercado de trabalho. As pessoas não têm que falar pela gente: há quem queira falar por si. Eu não quero ser silenciado para sempre", explicou.

Pai não quis ir à formatura

O jovem contou a um núcleo de amigos mais próximos o que pretendia fazer, assim como à família, a fim de evitar surpresas. Apenas a mãe e os tios, que são seus padrinhos, aceitaram ir. O pai recusou.

"Meu pai não entendeu muito o porquê de eu fazer esse protesto, achou que não era o momento mais adequado. Acredito que hoje ele entenda um pouco melhor – mas não quis ir à colação, eu o entendi, e acho que ele tentou me entender", sugere. Mesmo assim, ele faz questão de salientar: "Meus pais sempre aceitaram minha orientação sexual numa boa", garante.

Em 2015, o jovem chegou a registrar boletim de ocorrência em Santana do Livramento, depois de ser agredido por quatro rapazes em uma festa. Ele conta que o grupo se irritou depois de vê-lo beijando outro homem. A agressão, no entanto, aconteceu quando Costa estava sozinho.

"Primeiro eles me agrediram com xingamentos homofóbicos, e eu revidei. Em uma outra ocasião, nessa mesma festa, eu estava longe do cara com quem eu estava ficando e eles me agrediram, quebraram meus óculos. Registrei B.O., à época, mas não levei a questão adiante. Hoje, eu não teria essa mesma atitude e levaria (adiante), sim".


Primeiro formado com diploma na família

Costa voltou a morar com os pais em Cotia, na região metropolitana de São Paulo. Na próxima sexta (24), pré-Carnaval, ele começa a trabalhar. Se na capital paulista ele sente menos medo de expor a própria sexualidade?

"Em Livramento, como se tratava de uma cidade pequena, com todo mundo junto em vários lugares, eu buscava, estando sozinho, ser o menos percebido possível. Não que isso mude tanto em São Paulo, onde eu também tenho medo de andar nas ruas, mas a cidade tem alguns lugares onde, além de ter pessoas com as quais me identifico, há também aqueles onde eu possa ir sozinho sem receio de que façam algo contra mim", relata. "Mas, sendo gay, voltando à noite e pegando ônibus ou metrô, sim, eu tenho muito medo. Posso tentar 'disfarçar' isso por fora, mas, quando a minha condição fica clara, é muito mais complicado. Imagino o que os transgêneros devem passar", analisa.

O novo graduado é também o único do núcleo familiar a conquistar um diploma universitário, já que o irmão de 25 anos não tem curso superior e os pais, uma gerente de loja desempregada e um representante comercial, concluíram apenas o ensino fundamental.