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''Meu filho foi humilhado na escola por estar de chinelo''

''Meu filho foi humilhado na escola por estar de chinelo''


Atualizado em janeiro de 2017



Levei um tempo para entender o vídeo que recebi da minha filha Williane, de 15 anos, na noite do dia 5 de dezembro do ano passado. Nele, meu menino Pedro, 13 anos, aparece aos prantos em plena sala de aula. ''O que aconteceu?'', pergunta a professora que, comovida com o sofrimento do garoto, filmou tudo com o próprio celular. ''O Pedro está descalço; o vice-diretor tirou os chinelos dele no recreio, dizendo que é para ele aprender a nunca mais vir assim para a escola'', responde um aluno.

Registramos um boletim de ocorrência

Raiva e indignação tomaram conta de mim. Como assim?! Pedro sempre ia para a escola de chinelo e nunca haviam questionado! Aí, do nada, sem a menor explicação, o vice-diretor o obriga a assistir aulas descalço e a voltar para casa de pé no chão?! Meu filho chegou da escola. E estava absolutamente assustado!

Ele havia sido levado para casa pelo Conselho Tutelar – acionado pela mesma professora que filmou a humilhação toda –, que nos encaminhou para a delegacia da região. Lá, registramos um boletim de ocorrência. É a única coisa a fazer em casos como esse, pois o vice-diretor só poderá ser afastado após uma análise do Ministério da Educação (MEC).

Enquanto isso, o vídeo se espalhou pela internet. Assim que o viu, a diretora veio se desculpar pessoalmente, aqui em casa. ''Não sei o porquê de o vice-diretor ter agido assim'', disse ela, quando cobrei uma explicação. Ele, aliás, até hoje não se manifestou. Cogitei ir à escola e confrontá-lo, mas deixei para lá. Nada do que ele dissesse justificaria a sua atitude e nada do que eu dissesse o faria entender o quanto ele foi despreparado, cruel e covarde.


Ainda bem que há razões para acreditar!

Deixei Pedro sem ir à aula por quatro dias. Mesmo sabendo que teria de reencontrar diariamente o homem que o humilhou, em momento algum meu filho pediu para sair da escola. Por isso, na semana seguinte ao acontecido, lá estava o Pedro fazendo as provas. Passou de ano sem dificuldades. Baita alívio, ver que não havia ficado traumatizado!

Até porque, numa daquelas ironias da vida, a situação horrível que Pedro viveu colocou uma criatura maravilhosa nas nossas vidas: o Vicente. Fundador de um projeto que tem o objetivo de fortalecer o otimismo das pessoas por meio de histórias de superação. Ele se comoveu ao ver o vídeo feito pela tal professora e promoveu uma campanha para meu garoto ter um aniversário – ele completou 13 anos no dia seguinte à confusão – e um fim de ano mais felizes.

Assim sendo, no dia 16 de dezembro, fomos pela primeira vez para São Paulo, onde conhecemos o Autódromo de Interlagos. Que experiência incrível! Não só a do passeio em si, mas a de constatar que, apesar de toda maldade no mundo, existem pessoas muito boas, com as quais podemos contar nos momentos difíceis. E, graças a elas, histórias tristes acabam ganhando finais felizes.


Floracir Ferreira de Lima, 32, dona de casa, Planaltina, DF.


Como lidar com esse tipo de abuso?

I – Possíveis consequências psicológicas

Podem variar de uma ansiedade simples até síndrome do pânico ou fobias sociais – depende dos recursos internos que o garoto desenvolveu ao longo da infância para driblar/suportar essa condição da humilhação. Se o abuso se estende e não há nenhum tipo de acompanhamento psicológico, as relações profissionais podem ficar comprometidas no futuro. E de forma extrema: ou a pessoa recusa de autoridade, reagindo a ela de forma agressiva ou inflexível, ou se tornar um ser passivo e manipulável, que tudo aceita e não se impõe em situações adversas.

II – O que os pais devem fazer

Procurar auxílio psicológico, para saber se e como a criança/adolescente ficou ou não marcada. Trata-se de um importante cuidado preventivo, que evita repercussões no resto da adolescência e/ou na vida adulta.

III – Como orientar seu filho a se posicionar

Ensine-o a sempre relatar qualquer abuso e a pedir ajuda imediata. Não enfrentando o algoz, mas buscando o apoio de quem possa freá-lo. No caso, valeria ter buscado a diretora ou até mesmo a professora (que, por sorte, agiu sem ser acionada).


Francineia Fabrizzio, 38 anos, psicóloga.


O que diz a lei?

I – Quais medidas legais os pais podem tomar?

Podem registrar um boletim de ocorrência e recorrer à Secretaria da Educação para instauração de um processo administrativo. Ao final desse último, se comprovada a culpa, os pais também podem processar o réu de acordo com os crimes previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Importante: menores de idade não podem ser inqueridos por nenhum órgão que não seja judiciário sem a presença de um responsável legal ou o detentor da sua guarda.

II – Quais consequências o vice-diretor poderia sofrer?

A abertura de um processo administrativo, podendo ser afastado do cargo no decorrer da investigação (caso o juiz entendesse ser necessário, para preservação de provas e/ou não coação de testemunhas). Ao final do processo, há risco de exoneração, ou seja, demissão.


Marcelo Carvalho, 36 anos, advogado.