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''Me fingi de morta para meu ex não me matar''

''Me fingi de morta para meu ex não me matar''



Na véspera do acontecimento, o Dirceu* teve outra de suas crises suicidas. Mandou vários SMS falando que a vida não tinha sentido e iria se matar. A gente nem namorava mais, mas ele dizia precisar de mim porque eu era a única pessoa em quem confiava. Eu tinha pena e tentava ajudar. Ele me pediu para encontrá-lo. Fui. Mal sabia que a vontade do Dirceu de se matar iria se voltar contra mim.

Ele me seguiu até minha casa

As crises do Dirceu não eram novidade. Namoramos por quase quatro meses, de agosto a novembro de 2012, e desde outubro ele vinha com esse comportamento cada vez mais desequilibrado. Eu tinha medo de que ele realmente se matasse e me preocupava com as duas filhas dele, de quem eu gostava muito. Mas em 1º de fevereiro de 2013 tivemos uma conversa séria. Não dava mais para ele colocar a vida dele nas minhas costas e eu não sabia mais como ajudá-lo. Ele disse que iria se afastar de mim. Depois do papo, fui buscar minha filha Júlia, na época com 6 anos, que tinha passado as férias com meu ex-marido.

Almoçamos os três juntos. Enquanto isso, Dirceu nos observava de longe, escondido. Ele tinha me seguido de carro! Fomos para minha casa, meu ex se despediu e fui tomar um banho. Nisso, Dirceu bateu na porta. Ele tinha trazido uma das filhas, que tinha 7 anos, e Júlia os deixou entrar. Foi aí que tudo começou. De dentro do meu quarto, o Dirceu disse que tinha ido pegar um pertence dele. Não me importei. ''Por que você está escondida aí? Está com medo?'', perguntou. ''Não, só estou no banho''. Saí do banheiro de roupão e ele veio com uns papos bizarros. ''Tá tomando banho para o maridinho, é? Eu vi o almoço em família. Muito bonito. Felicidades.'' Não entendi onde ele queria chegar, mas estava de saco cheio dos dramas que fazia e disse que não devia satisfações a ninguém. Ele ficou transtornado e pegou as alianças que a gente usava com nossos nomes:

— Tá vendo isso? Vou tirar meu nome!
— Por mim, pode vender as duas, porque para mim não tem mais valor.
— Pelo visto nunca teve.
— Já teve, sim. Mas hoje não. Tanto que... – peguei a outra aliança e joguei na privada.

Fechei o olho para ele parar de bater

Os minutos seguintes foram tão rápidos que é difícil descrever. Dirceu voou na minha direção. Caiu com os braços no meu pescoço e começou a me enforcar. Parecia possuído! Enquanto ele me xingava de falsa e vagabunda, mordi seu dedo. Então, ele soltou minha garganta e me socou na cabeça. Não consegui reagir e pedi que parasse. Mas ele não parou. Caí e Dirceu bateu tanto na minha cara que um dos meus olhos, inchado, fechou. Tive que pensar rápido e me fingir de morta. Quando me viu caída no chão ''desacordada'', ele parou. Da fúria, passou ao desespero. ''Amanda, fala comigo!''. Eu fazia corpo mole e ele me sacudia. Esperei alguns segundos e abri levemente um olho: ''Me leva para um hospital''. Ele começou a me alisar e dizer que ia ficar tudo bem, que cuidaria de mim, mas não poderia me levar ao hospital porque seria preso. Não demonstrava remorso, só preocupação. Enquanto isso, minha filha e a dele estavam no quintal. Júlia me ouviu gritar e tentou me socorrer, mas a menina dele não deixou. Depois, ela disse que quando o Dirceu batia na ex-mulher, ela e a irmã se escondiam com medo de apanhar também.

Menti para ser levada ao hospital

O Dirceu fez eu me vestir e me levou para a casa da mãe dele. No carro, mesmo com as meninas no banco de trás, me xingava. Me empurrou para casa da dona Ana aos gritos porque eu tentei fugir, e ameaçou matar minha filha. Quando me viu, dona Ana começou a chorar e disse que o filho era um monstro. Dirceu bateu nela também. Ele me levou para o quarto e pegou gelo para tentar fazer meus olhos desincharem, mas eu insistia que tinha um traumatismo craniano e precisava de médico. Ele ainda não demostrava culpa, mas se preocupava com a cadeia. Chegou até a falar que ia se entregar, mas eu sabia que era conversa e disse:

— Não coloca polícia nisso, não. A gente fala que reagi a um assalto e você me ajudou.
— Você me perdoa? A gente vai ficar bem?

A gente vai se casar? – Perguntava ele.

— Não se preocupa, vai dar tudo certo.

Depois de uma hora, consegui convencê-lo a me levar para um hospital. Meu agressor me alisava e me beijava o tempo todo. Era nojento! Depois de passar pelo clínico, falei para o Dirceu ir buscar a carteirinha do convênio que estava em casa para eu fazer a tomografia. Mal ele saiu, chamei o médico. ''Doutor, esse rapaz me agrediu. Tem como chamar a polícia?'' Os policiais vieram, me ouviram e tiraram a viatura da frente do hospital para não levantar suspeita. Mal o Dirceu voltou, foi preso em flagrante. Nem cheguei a ver a cena, pois estava sendo atendida. Só fui encontrar de novo com ele na Delegacia da Mulher, onde ele jurou que só tinha me batido para se defender de uma mordida. Dirceu aguardou o julgamento na cadeia, em prisão preventiva. Nem sempre é assim, mas o juiz entendeu que eu corria risco se ele ficasse solto.

Cadeia não é castigo. É justiça!

Toda mulher agredida deveria fazer o que fiz. Eu gostava do Dirceu. Fui tão apaixonada que fomos morar juntos em um mês, pois ele é um cara cheio de qualidades. Mas nada disso justifica acobertar o que ele me fez. Nos cinco dias em que fiquei internada por traumatismo craniano, o advogado do Dirceu me pediu para retirar a queixa, garantindo que ele era incapaz de me fazer mal. Como alguém pode garantir isso?! A visita foi feita a pedido do Dirceu, claro. Até a mãe dele, que também apanhou, disse que quatro dias na cadeia já teriam sido uma boa lição. Mas eu não havia colocado o Dirceu de castigo. Aquilo era pela segurança da minha família e por justiça. O que ele fez é crime e não seria eu a passar a mão na cabeça dele.

Além disso, não era a primeira vez que o Dirceu me batia. Em outubro de 2012, reclamei por ele sumir durante dois dias e joguei um prato de comida no chão. Ele me empurrou, dei um tapa e ele me puxou pelo cabelo, me estapeou... O barraco terminou com uma medida de segurança: ele deveria ficar a 200 m de mim. Só que isso nunca deu em nada. O Dirceu foi para minha casa e corri à polícia, mas o inspetor me humilhou, dizendo que ''a gente'' – as mulheres – faz confusão, dá queixa e depois retira e que aquilo era ridículo. O Dirceu disse que nunca foi intimado por causa da primeira agressão.

Até entendo o delegado, pois eu mesma tentei ficar com o Dirceu de novo em dezembro de 2012, quando engravidei – perdi o bebê em janeiro. Mas não justifica a polícia nunca ter feito nada. Isso permitiu que o Dirceu continuasse me torturando com suas crises, ameaçando se matar. Mais de uma vez fui até ele só por causa delas. Tinha pena dele e da sua família, mas sabia que ele precisava pagar pelo que fez. Depois de ser detido, ele foi condenado a um ano, três meses e 15 dias e cumpriu pena fechada por tratar-se de uma ameaça à sociedade. Ele deveria ter ficado em regime semiaberto, mas era um sociopata e foi condenado a um regime fechado.

Já se passaram quatro anos desde então e eu refiz minha vida. Mas não existe um dia em que eu não pense no que passei nas mãos do Dirceu. Parece que foi semana passada que sofri aquelas cenas de terror. Hoje, vivo um dia de cada vez. Mudei de cidade e casei com um homem que me ama, respeita e sabe me tratar bem.


Amanda Figueiroa, 38 anos, professora, Petrolina, PE